<filters><filter>Disable</filter></filters> noscript
<filters><filter>Status</filter></filters> Não tive oportunidade de conhecer outros países e, graças ao Passagem Para, descubro novas culturas e interessantes modos de vida fora de nosso pais.
Francisco de A. Pedro
Santos
Para o programa "Passagem Para": Parabéns, parabéns, parabéns, parabéns, parabéns, parabéns, parabéns, parabéns, parabéns, parabéns, siga em frente, assim mesmo. Nachbin, essa sua simplicidade é o que dá charme ao programa.
Otávio Neves Cardoso
Salvador
<filters><filter>Status</filter></filters> 25 nov2011 Diário da Revolução, dia 3 Hoje, sexta-feira, ao meio-dia, quase toda a população aqui de Mahalla Al Kubra parou para rezar. Eu tinha esta informação. Só não tinha os meios para me aproximar desta situação.
Achei que não era o caso de tentar pré-produzir. Há um grau bem alto de tensão no ar e alguns fortes rasgos de xenofobia. Preferi tentar a aproximação na base do olho no olho, muito respeito (sempre) e paciência.
A minha personagem, guia e agora amiga havia me adiantado que seria complicado, com potencial para gerar conflito. "As pessoas estão muito sensíveis e a combinação estrangeiro-câmera de vídeo tem gerado rejeição, você tem visto."
Às 11:30 começou a ecoar, de várias mesquitas, a chamada para a reza. Peguei a minha câmera e fui. Com ela dentro da mochila.
A rua começou a encher. Com a mesquita lotada, os panos eram colocados na rua mesmo. Linda a cena. Mas começar a grava-lá, sem a construção de uma base de cumplicidade, seria um pedido para ser atacado. Talvez apenas verbalmente, mas seria.
Zanzei, fiz contatos, vários, olho no olho, cheguei a iniciar um breve "me good intention, you...", e não passava da página zero.
Até que... Até que recebi um aceno, me chamando. Me aproximei, fiquei intrigado, olhei fixamente aquele sorriso caloroso e... Claro! Era o senhor de quem eu tinha comprado frutas ontem. Nos saudamos calorosamente - ele em árabe, eu em portuinglês, algo assim, fiquei atordoado na hora. Ele me apontou para um rapaz, que havia montado uma barraca de frutas ao lado da mesquita. Pelo que entendi, era filho dele.
Trouxeram uma cadeira para mim - além de uma banana, uma tangerina e uma fruta que ainda vou pesquisar a respeito.
Terminado o lanche, enquanto eles tiravam o sapato para ir rezar, construí o mínimo de cumplicidade que buscava.
"Me, câmera, ok? Hum?" Efusivamente disseram que "sim" - assim eu entendi.
"E agora?", pensava. Haviam me colocado numa posição - a cadeira da barraca de frutas - que me gerava proteção e proximidade. Ao mesmo tempo, diante de mim estavam umas 150 pessoas no momento mais sagrado da semana. A semana em que voltou a ecoar forte a tal da Revolução.
Deixei a câmera sentada no meu colo, desligada, bem à vista, por quase meia hora. Neste período, ganhei vários olhares - nenhum amistoso. E apenas um que me pareceu ameaçador. O sujeito alto, branco, careca, uns 50 anos, ajoelhado, me olhava fixamente a cada minuto e meio. Em certo momento, achei que fosse levantar para falar comigo. Ou para me atacar.
Procurava alguma indicação que me desse segurança para apontar a câmera. E ela veio do careca mal encarado - quando ele deixou de olhar para mim.
Comecei apontando a câmera para o alto da mesquita. Depois, para a sacada da mesquita, as janelas da mesquita... Começaram a entrar alguns rostos no quadro, comecei a arriscar suaves movimentos de câmera... E senti a minha respiração voltando ao normal.
Terminada a reza, todos se levantaram e se calçaram. E quem foi o primeiro a vir na minha direção? O careca.
Permaneci estático. Respirei fundo. O careca caminhou uns 15 metros me olhando fixamente. Quando chegou bem perto, tive o impulso de levantar, mas me esforcei ao máximo para demonstrar zero de ansiedade. A meio metro de mim, o careca estendeu a mão. Levantei com a velocidade de toda a ansiedade acumulada e o cumprimentei. Não entendi o que ele falou em árabe. Tampouco havia alguém para traduzir. Depois dele, vieram apertar a minha mão mais uns sete ou oito. O diálogo foi todo corporal.
A cena da mesquita não era essencial para o documentário que estou filmando. Mas, por algum motivo, transformou o meu dia.
Ainda ganhei duas tangerinas no fim.
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24 nov2011 Diário da Revolução, dia 2 No fim da tarde de ontem, peguei um ônibus (quase vazio e com cheiro de cortina molhada) no Cairo e cheguei a Al Mahalla Al Kubra três horas depois. A minha futura entrevistada me aguardava no ponto de ônibus, me ajudou até o hotel, depois saímos para jantar, tudo bem tranquilo.
Hoje, porém, ao tirar a câmera da mochila, comecei a sentir a dificuldade que vou ter. A primeira reação da maioria é de rejeição. Pensam que estou atrás de alguma repercussão sensacionalista da revolução. Passei o dia com a minha entrevistada, que fazia a aproximação, a negociação e a tradução. Estranhos diálogos aconteceram, segundo ela. "Diga a ele para ir embora, não queremos que fique mostrando as coisas ruins do nosso país." E aí respondia a minha amiga: "É exatamente por isso que ele está aqui, neste bairro, nesta rua, diante de você - para mostrar as coisas boas." E aí a discussão prosseguia, o tom do outro lado às vezes subia bem, até que em algum momento simplesmente dávamos adeus e saíamos.
Muita gente acha - a maioria com quem conversamos - que a eleição da próxima segunda-feira deveria ser adiada. Nem todas as províncias vão votar na segunda. Mas, por ironia com potencial trágico, Cairo e Alexandria, os dois maiores centros, onde tem havido mais tensão, vão receber os eleitores. A mesma polícia que vem sendo atacada terá que dar conta também da complexidade de uma eleição.
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23 nov2011 Cairo durante a revolução
Chego ao Cairo prevendo muitas dificuldades. Vão me fazer mil perguntas, vão revirar toda a minha bagagem - neste momento, o controle sobre quem e o que estão entrando no país deve estar fortíssimo. Engano completo. Na verificação do passaporte, nenhuma pergunta. Devo ter ficado ali por uns 40 segundos - o suficiente para o rapaz digitar o meu nome e o meu número de passaporte na tela do computador, carimbar e falar algo que não entendi. No controle de bagagem, o senhor gordo, de bigode, cara boa, conversava com o amigo. Olhou para mim por 3 segundos, olhou o meu passaporte por 2 segundos, para a minha bagagem por 1 segundo e disse algo que novamente não entendi. Entrei no país. Não sabia se haveria alguém do hotel com o meu nome. Circulei e não vi placa - o suficiente para ser abordado por mais de uma dúzia de taxistas: "Taxi, sir?" "Sir, taxi, mine is cheap!" "Sir, taxi comfortable?" Todos gentis, sem exagerar no assédio. Olhei nos olhos de um por um e optei pelo sujeito alto, de bigode, rosto sério e atencioso. Mas, logo descobri que ele era o dono do 'business' - não sei com quantos subordinados. Me levou até um gordinho, também com cara boa e uma tatuagem de estrela no braço. O inglês do gordinho, no entanto, era "Elementar II", no máximo. O chefe explicou onde ficava o meu hotel, o gordinho jurou que havia entendido, o chefe me disse que "don't worry, he will call me if there is something wrong" e aí tive certeza de que o gordinho não ia achar o hotel. Mas, quebrar o pacto, ali, não me pareceu boa opção. Perguntei sobre o que faríamos se houvesse conflito nas imediações do hotel. O chefe, então, combinou - em árabe - um plano B com o gordinho. Em seguida, me explicou que havia indicado 2 ou 3 hotéis na mesma faixa de preço do meu e bem afastados do centro. O gordinho dirigia no meio da pista dupla - para ter a opção de ultrapassar pela direita ou pela esquerda, conforme indicasse a oportunidade. Me incomodei no inicio, mas fiquei quieto. Depois, até que achei bom - se surgisse confusão, ele tentaria escapar com agilidade. Chegamos às redondezas do hotel e fiquei impressionado com a quantidade de gente nas ruas - na mais absoluta normalidade. Não vi um policial. Me disseram que eu passaria por varias blitze entre o aeroporto e o hotel. Não houve nada. E o gordinho, como eu já previa, não encontrava o hotel. Por conta própria, sem que eu me desse conta, dirigiu até bem perto da praça Tahrir e me apontou a multidão. Vi dezenas de jovens chegando com máscara pendurada no pescoço, para cobrir boca e nariz, em caso de conflito com bombas de gás lacrimogêneo. Com alguma veemência, mostrei a ele que não havia gostado e o orientei a pegar uma rua transversal. Ele foi rápido e se afastou do "perigo" - que, naquele momento, era aparentemente nenhum. Mas, se começasse um confronto, se se iniciasse um quebra-quebra, eu ficaria ali, com uma mochila e uma bolsa, perdido, atordoado, sem mobilidade. Nos afastamos, rodamos por mais uns 15 minutos e achamos o hotel - dentro de uma galeria escura, sem qualquer placa. Se fosse uma armadilha, teria sido perfeita. Mas, nem pensei nisso, claro, esta é uma reflexão ficcional de agora. Várias pessoas nas ruas haviam indicado aquele caminho. Gordinho e eu pegamos um velhíssimo elevador, subimos cinco pisos e finalmente avistamos a placa: "Talisman Hotel de Charme". A dona, gordinha e simpatissíssima, sorriu e perguntou: "Mister Luis?" Quarto silencioso, cama ótima, dormi muito bem.
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19 jul2011 Entre Fronteiras, entre tempos A série 'Entre Fronteiras' está no ar pelo Futura e a minha vida entre o passado e o futuro. De vez em quando falo por telefone com o Jair, nosso singelo gênio do cinema mudo, criador do personagem 'Pistolino' e protagonista do segundo episódio da série, exibido na terça, dia 12. Jair é artesão e faz cinema na base da coragem, do romantismo e da perseverança. Monta os seus cenários com ferro velho e doações. Produz, dirige e atua. Outro dia falei: "Jair, quero ser o seu produtor executivo. Quero viabilizar os seus filmes". Ainda não levantei um centavo para o Jair, mas hei de conseguir. Me perdoem pelo clichê, mas o Brasil precisa conhecer o Jair.
Desligo o telefone e ligo para a Carline, haitiana, inteligente, delicada, protagonista do episódio que abriu a série, na segunda-feira, dia 11. Carline eu conheci em Tabatinga, tríplice fronteira com Colômbia e Peru. Depois a ajudei a migrar para Manaus. Depois, rumo a São Paulo. E lá está ela, procurando trabalho, conseguindo bicos que pagam mal e não a tratam bem. No documentário, eu comento: "Não vou perdê-la de vista de jeito nenhum". Não me sinto cumprindo promessa. Apenas sigo o meu coração e a minha intuição.
E assim têm sido os meus dias depois de terminada a produção do 'Entre Fronteiras'. Vivo cheio de saudade dos personagens. Não quero assumir uma postura paternalista. Mas preciso vê-los entrando em algum tipo de sonho prazeroso, assim como tenho vivido o meu – proporcionado por eles.
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23 dez2010 Entre as fronteiras
2010 está sendo um ano ótimo para mim. Não paro de viajar. Ao mesmo tempo, não paro de curtir o aconchego da minha casa, especialmente o desenvolvimento da minha Cecília, já com quase 3 anos.
2010 está sendo também um ano duríssimo. Não paro de viajar. Tenho ido para muitas fronteiras do Brasil. Claro que passei pelo Chuí. Também pelo Oiapoque. E por várias outras. Passei alguns sufocos. Passei momentos inacreditavelmente bons.
2010 é o ano de produção da série "Entre Fronteiras". Serão 20 programas novos. Vinte documentários mais ou menos parecidos, em termos de linguagem, com o "Passagem para". Às vezes eu acho que sim. Em geral acho que não. Quando a série entrar no ar, vocês é que vão dizer. No momento, estamos com 16 documentários prontos.
"Entre Fronteiras"! No ar provavelmente a partir de março. Divulgarei muito mais e melhor.
Em 2010 sumi muito. Em 2011 espero sumir menos.
No mais, um Natal cheio de saúde e harmonia para todos vocês.
Beijos,
Luís
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30 ago2010 Do Oiapoque ao Chuí
"Que início clichê, Nachbin. Caramba, não tinha um título mais batido, não?!"
Preferi ficar mudo.
"Por que este lugar-comum do tamanho do Brasil?"
"Do tamanho do Brasil é um lugar-comum que vai do Oiapoque ao Chuí. Nós dois começamos mal", respondi.
"Falei de propósito, você não percebeu?"
"Eu também comecei com o clichê de propósito, mas você não deixou que continuasse", rebati.
"É que o clichê é a ausência de criação. É o jornalismo burocrático, mecânico. Fuja disso."
"Aaaahhhh, muito obrigado, não sabia o que era um clichê...", resolvi debochar um pouco. "E eu fujo do clichê como o diabo foge da cruz.... Calma, calma, falei para provocar."
Silêncio do meu interlocutor.
"Só escrevi o famigerado 'do Oiapoque ao Chuí' para dizer que encontrei seguidores do Passagem tanto no Oiapoque, quanto no Chuí. E aí vai uma foto à beira do rio Oiapoque com a ótima Edilza. No dia do meu aniversário, lá no Oiapoque, a Edilza me deu uma caixa de bombons."
"Aaaahhhh, que singelo!... Não, brincadeira, achei bacana, sério mesmo."
"Ok, ok, ok, sem problema. Só queria mandar um beijo carinhoso para a Edilza. E um abraço forte para o Renê, que conheci no Chuí. Me mande uma foto sua, Renê!"
"E envie também uma caixinha de bombons de chocolate com nozes para o Nachbin, ok, Renê?..."
Me retirei. Tinha mais o que fazer.
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18 ago2010 Quem sou eu, parte I Ainda estou engatinhando nas redes sociais - admito plenamente. Estou atrasado - reconheço e padeço. "Twitter", para mim, é uma ferramenta esporádica, que sub-utilizo. Do "Facebook" conheço o layout - passo em frente ao computador da Ludmila, minha mulher, e o vejo de relance. No Orkut existe uma comunidade do Passagem para. Quando entrei lá pela primeira vez, achei sensacional.
Também curti a segunda, a terceira, a quarta... Mas não consegui, assim como não consigo até hoje, fazer com que entrasse na minha rotina.
Aí, o que acontece? Acabo ficando um tempão, às vezes, sem dar notícias. O silêncio me seduz, não sei muito bem por quê. Mas o gosto pela introspecção não é maior que o meu prazer pelo ofício de contar histórias.
Bom, agora com licença que vou twittar. Acompanhe minhas experiências em @luisnachbin .
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30 jul2010 Hoje faço 46 Sozinho, aqui no Oiapoque, me abraço e me digo 'parabéns'!
"Pô, Nachbin, que comecinho mais piegas."
Hoje completo 46 primaveras e queria dividir a alegria desta data com vocês.
"Pô, bicho, piorou. Jornalista adora um textinho clichê, não é não?"
Hoje, 30 de julho de 2010, aqui no Oiapoque, cumpro mais um aniversário na estrada.
"Cumpro?! Você está cumprindo aniversário?! Tudo bem que a sua idade começa a ficar comprida, mas aí é com 'o', não é com 'u'. Sacou?"
Para um viajante, a 'cereja do bolo' é a estrada. E hoje, aqui no Oiapoque, não me sinto só. É como se...
"Espera aí, espera aí! 'Cereja do bolo' é de ferrar, não tem a menor condição. Se quiser ser brega, então vá com tudo, Nachiba. Mas aí que fique claro que esta é a sua proposta de estilo."
Quarenta e seis anos atrás, no distante Seneca Lake, norte do estado de Nova Iorque, Estados Unidos, iniciava as contrações na barriga da minha Mãe.
"Olha, melhorou um pouco porque tem informação. Talvez não saibam que você nasceu por lá, e tal. Mas, foi você quem iniciou as contrações? Não sei, soou esquisito. Última tentativa, ou então desiste logo deste texto egocêntrico."
Pessoal: hoje faço 46 anos, tô meio carente, sozinho aqui no Oiapoque. É isso.
"Ok, ok , agora pelo menos o texto ficou simples e sincero. Mania que esses jornalistas têm de criar firula e complicar a história."
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